segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

dica 043 - Ser torcedor de escola de samba

"Anônimo disse...
caralho, atualiza essa porra, comunista vagabundo!!"


O carnaval do Rio de Janeiro tem tudo que a Classe Média gosta. Tem gente famosa, estética exagerada, grande ostentação, gringos e muito destaque na televisão. E é por isso que, no Carnaval, muitos médio-classistas se sentem à vontade para eleger uma Escola de Samba como favorita, e tal qual a paixão clubística do esporte, torcem por um bom desempenho no "campeonato" da Sapucaí. 

O principal motivo pelo gosto da Classe pelo carnaval carioca é o obedecimento aos mandamentos da sabedoria suprema do universo (a televisão). Graças ao alcance da TV, este comportamento extrapola os limites do Rio, levando a toda a Classe Média brasileira o desejo de participar daquela festa cheia de artistas e atores de novela, à voz de narradores de futebol. No carnaval, o representante da Classe tem que, obrigatoriamente, demonstrar a alegria e a felicidade do povo brasileiro, é o que diz a tela mágica.

Na ânsia de ver de perto algum famoso e, quem sabe, aparecer em rede nacional, muitos médio-classistas chegam a pagar um bom dinheiro para desfilar por sua escola favorita. E outros tantos se contetam em comprar uma camisa de sua agremiação e apenas assistir ao cortejo. Você que almeja entrar para a Classe pode usar uma dessas estratégias, mas lembre-se: você deve ignorar complemente o fato de que o nome que você grita na arquibancada, estampa no peito ou torce no dia da apuração é o nome de uma favela.

----------------------


(Problemas particulares têm me impedido de postar aqui com regularidade. No início de março a coisa estará regularizada. Obrigado a todos que continuam visitando este espaço.)

(Não esqueci a parte 2 das formaturas. Guenta aí, galera.)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

dica 042 (parte 1) - Fazer formaturas homéricas

*O tema "formatura" foi sugerido via e-mail pelo Rodrigo Cardia, do Cão Uivador, e pela leitora Camile Tesche.

Existe uma ocasião na vida do médio-classista em que ele vira artista por um dia. Desfila no tapete vermelho, sobe no palco iluminado a laser, aparece no telão, solta a voz no microfone, recebe aplausos... Não é exatamente o Oscar, mas é quase: é a formatura. Você que deseja se enturmar e fazer parte da graduada Classe Média, deve aprender que não basta ter curso superior. Um curso superior, por si só, não vale lá muita coisa. Tem que fazer uma formatura digna de superprodução de Roliúde. 

O médio-classista já entra na faculdade pensando no investimento para a formatura. Para tanto, economiza cada centavo dos vencimentos dos estágios que os amigos do papai lhe arrumam. E ainda tem que complementar, empurrando brindes vagabundos e caros para parentes e amigos, promovendo festas temáticas e fazendo coisas edificantes como “pedágios” e roubo dos trocados dos calouros. Ainda bem que o Papai Classe-Média entende a situação e banca a gasolina do carro que o filhão ganhou quando passou no vestibular.

O evento da colação de grau também serve para que o médio-classista descubra quem realmente é seu amigo. Somente um grande amigo, daqueles para qualquer ocasião, se submeteria a mais de quinze minutos desse tipo de cerimônia. A produção é, como diz a propaganda do cerimonial, o supra-sumo do “requinte e sofisticação”. Inclua-se aí uma trilha sonora de primeira, com direito a muito Kenny-G, Jean Michel-Jarre e altas doses de Enya antes do início e nos intervalos. Para a entrada triunfal dos formandos, tal qual gladiadores ensaguentados, Carmina Burana sempre cai bem. Isso quando não resolvem colocar uma música pra cada cidadão que está se formando. Aí é o teste da paciência suprema até que 70 ou 80 becados atravessem o salão, sendo filmados e fotografados em seu momento de glória, ao som da sua musiquinha escolhida, que vão desde "menino da porteira" até "I will survive".


Normalmente dotadas de uma aparelhagem monstra, essas solenidades são marcadas pela ansiedade do cerimonial em demonstrar toda a gama de recursos visuais de que dispõe. Assim, aquele laser que faz desenhos nas paredes é acionado a todo vapor, a desenhar todas as formas possíveis, num espetáculo curioso de complexo de pavão. O resultado nos faz imaginar como seria um show do Pink Floyd onde a iluminação fosse operada pela Hebe Camargo. 

 (continua...)