quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deleite sem limites para a Classe Média (2): o filme do Lula



Você não leu errado. O filme do Lula é, sim, deleite sem limites para a Classe Média. Tudo o que o médio-classista padrão mais queria como presente para o início do ano, era um motivo bem grande pra falar mal do Lula. Graças à ambição desmedida do diretor e do produtor, à massagem certeira no ego do mandatário e à cabeça oca de uma pá de assessores presidenciais, estreou, no primeiro dia do ano, o filme sobre a vida do Presidente da República.

A se julgar que na Classe Média todos são esclarecidos e escolarizados, o que quer dizer, exatamente, que são inteligentes, e ao juntarem na mesma equação “filme do Lula” e “ano eleitoral”, há de se chegar à brilhante conclusão de que o filme tem intenções eleitoreiras. Provar a própria inteligência é um deleite para a Classe Média.

Quando o médio-classista abrir a Veja e ler que o filme é horroroso, mentiroso, exagerado e politicamente tendencioso, que transformaram um vilão em heroi, soltará um “eu já sabia” em pensamento. A confirmação de seu poder de dedução é um deleite para a Classe Média.

Quando for ao cinema assistir Avatar, e for obrigado a ver o trailler do filme do Lula, berrará palavras como “ladrão” e “cachaceiro”, mostrando toda a educação da Classe Média, que se abstém de gritar “paraíba”, “baiano” ou algum nome em referência à deficiência física do personagem, porque mamãe ensinou, na sala do apartamento, que é feio. Provar a superioridade da própria criação é deleite para a Classe Média.

Quando a Folha publicar uma matéria informando que “descobriu” que os financiadores do filme têm interesses no Governo, ficará surpreso pelo fato de empreiteiros e empresários um dia financiarem alguma coisa de olho em vantagens na relação com o poder público. Lula perverteu os coitados dos empresários! Demonstrar publicamente esclarecimento e conhecimento dos fatos é o puro deleite da Classe Média.

Não assistir o filme e dizer que o mesmo é ruim, é liberdade de expressão. Para o deleite da Classe Média, nasce um clássico do gênero “não vi e não gostei”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

dica 041 - Admirar o talento do Pedro Bial

Que o Big Brother Brasil é um programa de baixa qualidade, apelativo e aculturado, não restam dúvidas para você, médio-classista esclarecido , telespectador do Jornal Nacional e do Fantástico. Você, enquanto membro ativo da Classe Média, deve defender este ponto de vista na roda de amigos, assentindo com a cabeça e dizendo "é mesmo" enquanto seus interlocutores desqualificam a tal atração televisiva. Mas não se preocupe, este sacrifício deve durar no máximo dois minutos, até que alguém comente algum diálogo ou situação do programa. Neste ponto, todos concordarão, darão mais detalhes do acontecimento, comentarão até o penteado e a roupa dos "brothers", e em instantes, como mágica, todos se revelarão espectadores da atração global, se apoiando na desculpa de que "não tem nada melhor na tv neste horário" e "todo mundo assiste mesmo, o que é que tem?".


Anualmente engrossando (pelo jeito à força) essa  audiência, a Classe Média concorda que a cultura e a inteligência do apresentador Pedro Bial fazem o programa valer à pena. Sua superioridade intelectual fica mais evidente quando ele conversa com os participantes do programa, onde dá pra se comparar o vocabulário e as idéias das pessoas comuns, gente de bem como a gente, com os deste verdadeiro poeta. E vale à pena prestar atenção enquanto Bial transborda em lirismo nas ocasiões em que participantes são eliminados, principalmente no capricho da locução dramática. É emocionante! O Bial é o sobrinho que toda tia de Classe Média sempre quis ter: educadinho, cabelinho lambido, tem fama de inteligente, é comportadinho na escola, mas como não é seu filho, não precisa gastar seu tempo argumentando contra a sua fama de esquisito e de menino-de-apartamento.



Ainda bem que existe a televisão, para abarcar talentos assim tão extraordinários. Difícil imaginar a TV sem Bial, sem Zeca Camargo, sem o Jô e sem o Jabor. E ainda bem que existe iPod, pois assim você pode mostrar a todo mundo, além da traquitana eletrônica importada, o fato de você transportar em seu bolso aquela música/mensagem-de-fim-de-ano/poema-moderno sobre o filtro solar, que já te arrancou muitas lágrimas teimosas.



sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

dica 040 - Ficar chocado quando um rico morre tal qual um pobre



Um bom método para identificar a prática do médio-classismo, consiste em analisar a reação de uma pessoa a notícias sobre morte. Neste caso, consideremos as situações onde tenha morrido alguém sem ligações afetivas ou sociais com o analisado, aquelas mortes de desconhecidos que a televisão sempre noticia.

A época da estação das chuvas, conjugada ao período das festas que vai do natal ao carnaval, é muito propícia para a prática dos métodos de identificação de médio-classista. Com ela vem a certeza de que muita gente vai partir do mundo dos vivos, nas grandes ceifadas sazonais que a Dona Morte promove durante estas datas, seja via acidentes nas estradas, deslizamentos de encostas, enchentes ou coisas do gênero. Quem quer realmente aprender a ser da Classe, que tome assento e tome nota quando perceber um médio-classista assistindo às notícias do temporal no jornal da noite.

Fundamentalmente, na ótica da Classe Média, tais fatalidades podem ser classificadas em dois tipos: a “desgraça”, algo corriqueiro e inerente à existência dos pobres e favelados, e a “tragédia que abalou a família brasileira”, que, grosso modo, vem a ser uma “desgraça”, mas com rico no meio.

A desgraça é um evento com o qual o médio-classista lida muito bem. Pobres morrem o tempo todo, das mais variadas formas. Isso é normal. Está tudo bem, desde que não seja durante o expediente ou na véspera da faxina. Mas atenção: a Classe Média tem coração. Quem quiser praticar um pouco de médio-classismo durante a cobertura televisiva de uma desgraça, deve separar meio minuto do seu dia para sentir pena. Depois, é só voltar ao que estava fazendo.

A tragédia que abalou a família brasileira, por sua vez, é algo capaz de indignar profundamente a alma dos classistas. Consiste na morte de um rico (ou mesmo um médio-classista respeitado em seu meio) em circunstâncias em que normalmente só morreriam pobres. E não interessa se o morto era conhecido ou não. A Classe tem o sentimento de bando, e uma baixa dessa natureza costuma deflagrar um luto, mesmo que contido, em pessoas que nem sabem o nome completo da vítima. Mas quando o falecido é alguém muito mais rico (porque Classe Média não é rico), o sentimento é mais forte, afinal, qualquer pessoa que seja mais rica que um médio-classista, é considerada por este como um semi-ídolo.

Contudo, algo que vai além disso incomoda muito o cidadão da Classe: ter o mesmo fim que o pobre. Pior mesmo é se for por um motivo tradicionalmente utilizado pelos pobres. A permanência em vida não é algo exclusivo, não dá pra fazer disso um clubinho só pra ver os pobres do lado de fora, assistindo Amaury Júnior e sonhando em entrar um dia. A condição de mortal faz todo mundo, em última instância, ser igual, não interessa se a tela mágica da sala de estar só mostra vídeos, fotos e depoimentos a respeito de alguém que a Classe considera um dos seus. (Queriam o quê? Que o aparelho sagrado ficasse perguntando a opinião dos pobres que sobreviveram?) Talvez por isso, por essa falta de reconhecimento à importância do médio-classismo praticante, morrer seja considerado pela Classe uma tragédia tão trágica, sem o perdão da redundância.