quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

dica 039 (parte 2): Ter espírito natalino



O Natal é uma grande celebração dos valores da Classe Média. Grandiosas e fartas festas são oferecidas em nome da santíssima trindade: a tradição, a família e a propriedade. Para celebrar estes três pilares de devoção, institui-se a figura do “Natal em família”, uma festa que acontece tradicionalmente todos os anos, com o maior número de familiares possível, normalmente na propriedade do patriarca. E não é uma festa qualquer: é uma espécie de prestação de contas coletiva e anual, algo como uma convenção para tornar pública as vidas alheias. Principalmente suas partes ruins.

Ali se reunirão pessoas que, na maioria das vezes, só se vêem durante estes eventos. Mesmo assim, a necessidade tomar e dar satisfações é legítima e inquestionável. Este tipo de evento não se constroi apenas através da fartura dos comes e bebes. A alma da coisa é a avaliação e o julgamento mútuo da vida de cada presente. Por isso, todos vão dispostos a causar a melhor impressão possível, mesmo para as pessoas que menos gostam ou que nem mantêm contato. E por que estas pessoas se submetem a isto? Por que simplesmente não faltam ao evento? Simples: os que faltam não podem desmentir os boatos que fatalmente surgirão, e portanto serão o foco das conversas a maior parte do tempo, sem direito a defesa. Aos ausentes, o maior prejuízo na imagem. Infelizmente é a lei.

Nesta festa acontecerá a batalha do ano em busca da atenção de quem quer que seja. Aditivados por álcool, cada um tentará se mostrar o mais chegado do patriarca, mesmo que não tenha falado com ele uma vez sequer durante o ano, no intuito de fazer com que a família imagine que o bajulador merece uma substancial fatia da herança que há de vir dentro de poucos natais. Nas rodas de conversa, muitos contarão suas proezas nos negócios, em viagens internacionais,  na vida em sociedade, tentarão fazer comparações de salários. As crianças correrão pela casa, quebrarão coisas, perguntarão como diabos o Papai Noel entrará em suas casas, uma vez que apartamentos não possuem chaminé. Os mais ricos humilharão os mais pobres com entrelinhas venenosas, e os intermediários pagarão pau para os mais ricos.

Se você, aspirante a médio-classista, vislumbrou cenas de terror absoluto na descrição acima, não se preocupe. Apesar da hostilidade do ambiente, por incrível que pareça, ali estará todo mundo sorrindo. Tudo o que você precisa fazer, neste caso, é sorrir também, não importa quais comentários maldosos tenha ouvido a respeito do seu novo emprego ou sobre sua vida amorosa. E você também pode se distrair com a inevitável decoração, e também com a trilha sonora. Pode ser que não toque Beatles (muito provavelmente não tocará), mas pelo menos uma do John Lennon na voz da Simone sempre rola. E ainda tem o especial do Roberto Carlos na TV, uma ótima oportunidade para distrair e se livrar das tias chatas.

Realmente não é uma tarefa das mais fáceis se adaptar a este estilo de vida. Mas para fazer parte da Classe Média, é muito importante entender de espírito natalino. E infelizmente, essa disciplina só pode ser patricada uma vez por ano. Portanto, para fechar o ano bem médio-classista, vista sua melhor roupa, sua melhor máscara e boas festas!

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Obrigado aos que acompanharam o Blog durante 2009. Voltarei a postar no início de Janeiro. Feliz 2010 a todos.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

dica 039 (parte 1) - Ter espírito natalino





Não adianta tentar fugir: para ser médio-classista, é estritamente necessário gostar do Natal.

O Natal é uma festa que acontece todo final de ano, onde as pessoas louvam um deus sempre retratado de barba, que veio do céu para trazer à humanidade o que realmente importa nesta vida. Trata-se do Papai Noel, carregado com um saco bem grande de bens de consumo. O Papai Noel é uma divindade muito louvada pelos médio-classistas, um personagem criado pela indústria de refrigerantes como o símbolo da festa mais importante para a Classe Média: a época das compras de Natal.

Apesar de ser uma importante e apreciada época festiva, as origens do Natal, tal como hoje é conhecido, não são bem claras. Algumas correntes científicas defendem que a data era utilizada, em tempos remotos, para festejar o nascimento de Jesus, ícone das religiões cristãs. Esta teoria, no entanto, enfrenta forte combate quando exposta ao fato de que sua comemoração ocorre no dia 25 dezembro, contrariando a lógica pela qual o calendário ocidental moderno se utiliza do nascimento do mesmo personagem como marco zero, o que, por dedução, só estaria correto se o mesmo nascesse no dia primeiro de janeiro. A contra-argumentação dos estudiosos que ligam o Natal a Jesus apresenta duas versões para resolver o imbróglio: ou ele nasceu prematuro de 7 dias, ou ele só foi registrado no cartório 7 dias depois, porque os pais moravam na roça e naquela época era penoso e demorado chegar à cidade no lombo de um burro. Ainda não há consenso na comunidade científica sobre o assunto.

O Natal também é a época da afirmação dos verdadeiros valores da Classe Média, e isto ela faz com demasiado talento. No afã de deixar claro que ter nascido no Brasil foi apenas um acidente de locação geográfica, os médio-classistas se esforçam para compartilhar do mesmo tipo de festividades que os grandes irmãos do hemisfério norte, também conhecidos como "mundo civilizado". Abre-se mão do mundialmente invejado clima tropical, que proporciona, por exemplo, noites de agradável temperatura, preferindo ambientar suas comemorações em uma emulação do inóspito clima de nevasca. Em pleno calor causticante de verão, nossos shoppings se cobrem de neve de espuma e isopor. Velhos gordinhos, coitados, são fantasiados de Papai Noel, enfiados em vestimentas, luvas e botas inclusive, desenvolvidas originalmente para que esquimós consigam atravessar vastíssimos desertos de gelo em busca de focas gordas. A tortura se completa com milhares de lâmpadas incandescentes, para tornar o ambiente já quente em uma verdadeira chocadeira, e claro, horas a fio de música instrumental das famigeradas harpas natalinas. Haja saco, hein Papai Noel!



(continua...)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

dica 038 - Conhecer alguém famoso



Para quem almeja ser respeitado como um autêntico membro da Classe Média, dizer que conhece alguém famoso pode render bons frutos.

Faz parte da conduta médio-classista buscar argumentos para se mostrar ao mundo como um ser humano com características especiais, como se fizesse parte de um seleto grupo da mais apurada genética, a quem as pessoas comuns devem admirar simplesmente por ser quem é. E nada encaixa melhor nesta descrição do que uma pessoa considerada “famosa”. Por isso, quem afirmar em uma roda de amigos de Classe Média que possui qualquer tipo de ligação com uma pessoa famosa, certamente obterá a atenção imediata de todos, desde seus interlocutores diretos até aqueles envolvidos em conversas paralelas.

A definição de “famoso” não é de difícil compreensão. É o sinônimo de “celebridade”. Se tiver dificuldades com o termo, utilize a regra que nunca falha: famoso, ou celebridade, é quem aparece na TV (a glória suprema da raça humana). A expressão pode abrigar várias categorias de pessoas: músicos, políticos, jogadores de futebol, modelos, participantes de escândalos, apresentadores de programas diversos, jornalistas e um sem-número de ocupações. “Artista” também é uma nomenclatura bastante utilizada, por possuir o mesmo sentido e se aplicar a todos os exemplos acima. Outra regra: parceiros sexuais de celebridades também são celebridades. Aprendeu? Então responda, qual dessas duas pessoas é famosa: José Saramago, ou o “Cabeção” da novela Malhação?

Tornar público o fato de conhecer um famoso é extremamente desejável. No entanto, isto não pode ser feito assim, de qualquer maneira, sob o risco de receber o rótulo de pessoa esnobe. Como o médio-classista padrão é convencido de que ser esnobe não é uma de suas qualidades, quem assim for rotulado perde pontos de credibilidade, sob a desconfiança de autopromoção explícita e gratuita. Logo, existe uma certa etiqueta para aplicar este recurso.

Em primeiro lugar, o fato de conhecer alguém famoso não deve ser o tema principal da conversa. Ele deve surgir naturalmente, dentro de outra conversa sobre qualquer assunto. Um exemplo: num papo sobre “literatura de qualidade”, você pode perguntar se alguém ali já leu o último livro do Paulo Coelho. Ignore as respostas, e complemente dizendo que o livro é ótimo, e que inclusive comentou isso, semana passada, com o "Guilherminho do BBB 3," quando você o encontrou buscando a “Julinha” na escola de balé.

Em seguida, demonstre possuir intimidade com o famoso. Explique que sua filha e a tal “Julinha” são colegas de balé. Diga isso como se todos soubessem que a filha do cara se chama Júlia, e que você a trata pelo diminutivo. Vai parecer que é algo tão natural pra você, que faz parte do seu dia-a-dia. Procure demonstrar que você vive no mesmo mundo que o famoso, compartilha o mesmo espaço e respira a mesma fumaça.

Neste ponto, alguns de seus colegas da Classe estarão suspirando, com orgulho do dia em que te conheceram. Outros terão uma suprema inveja, o que conta ainda mais pontos para ser aceito no grupo. Quando chegar neste nível, atenção: mude de assunto a qualquer custo. Sua missão estará cumprida, e você pode colocar tudo a perder se continuar falando. Há o risco de você acabar contando que viu este “famoso” apenas duas vezes na sua vida, sendo que na primeira implorou por uma foto com seu celular e um autógrafo em sua camisa, e na segunda o abordou de forma tão afoita que o famoso foi embora e te deixou falando sozinho. Isso é segredo! Ficar eufórico diante de uma “celebridade” é coisa de pobre. Logo, quando for fazê-lo, certifique-se de que não há ninguém olhando.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Deleite sem limites para a Classe Média (1): Veja falando de autoajuda



O supra-sumo do jornalismo semanal impresso para a família médio-classista, a revista Veja, não se conforma em apenas ser um símbolo para a Classe. Não satisfeita, a edição desta semana traz em sua capa a chamada para uma reportagem que promete ser bastante esclarecedora ("não adianta torcer o nariz") sobre as propriedades místicas da Autoajuda. Um combo pra ninguém botar defeito.


Trocando em miúdos: revista Veja, falando dos best-sellers da autoajuda, explicando como são eficazes para vencer etapas difíceis da vida, inclusive dando ênfase ao lado místico da coisa, com uma ariana magra e feliz pra ilustrar (uma escolha claramente aleatória), a edição corre o risco de ser retirada precocemente das bancas sob a acusação de causar orgamos múltiplos espontâneos nas salas de estar dos apartamentos e nas esperas dos consultórios odontológicos Brasil afora.

*sugestão via e-mail de Ana Spoladore;
**antes que alguém pergunte, o formato tradicional das dicas não vai acabar.