domingo, 22 de novembro de 2009

dica 037 - Livrar o filho do serviço militar obrigatório



Para ser um cidadão da Classe Média, é fundamental ter aprendido que este status significa ter muitos deveres e poucos direitos. Isto quer dizer que nem todos os deveres são tão “deveres” assim, pois a situação injusta é um salvo-conduto para utilizar um “jeitinho” de ficar livre de determinadas obrigações. É assim, por exemplo, com o bom e velho serviço militar obrigatório, aquele ao qual todo brasileiro do sexo masculino precisa se apresentar ao completar a maioridade e que, eventualmente, precisa servir.

Muitos pais de família medioclassistas guardam boas lembranças da época do serviço militar obrigatório. Normalmente o período é tido como uma fase de grande aprendizado e da conquista de boas amizades. Mas quando o patriarca pensa em seu rebento pós-adolescente às voltas com a possibilidade de enfrentar as situações que conhece bem, imediatamente aciona os mecanismos de superproteção em seu cérebro medioclassista. O Papai Classe Média sabe muito bem que aquelas mãos de pele fina, acostumadas apenas ao videogame, não são adequadas ao manuseio de fuzis, e aquele físico nada avantajado de “filho de apartamento” não é adequado para as flexões e para os terríveis cangurus diários. Imagine então ter que acordar o menino todos os dias de madrugada!

Por estes motivos, o patriarca faz questão de procurar “contatos”, pessoas ligadas a algum figurão de patente respeitada nas instituições militares, e através destas conexões, pedir para tirar dessa fria o imberbe filhote. Para evitar que o sangue-de-seu-sangue seja submetido à rígida hierarquia militar, tendo que obedecer a alguém de salário baixo, o aplicado papai vai em busca do tal figurão, munido de grande disposição para o diálogo, apelando para infindáveis coincidências da vida, lembrando da época em que serviu, dos possíveis amigos em comum, quem sabe algum conhecido que seguiu carreira no exército, e para provar que dá muito valor à instituição, não descarta bater continência, pagar ele mesmo dez flexões ou lustrar as botas do comandante.

Após esta primeira sessão de reconhecimento à grandeza do serviço militar, vem a parte dos “poréns”, com um vasto repertório de desculpas previamente ensaiado: vestibular, problemas de saúde, trabalho, a mãe preocupada. O militar escuta aquilo tudo, pondera, diz que vai quebrar o galho do papai desesperado e libera o menino. O chefe-de-família medioclassista vai embora feliz da vida e conta pra todos os amigos como a sua influência de bastidores livrou o filho do serviço militar obrigatório. O filho fica aliviado de poder continuar acordando às onze todos os dias. E o comandante do batalhão acumula mais uma história divertida sobre um sujeito de meia-idade que veio se humilhar por causa de um inscrito que já ia cair mesmo no excesso de contingente. Ou seja: no final, todo mundo sai feliz.

domingo, 15 de novembro de 2009

dica 036 - Achar que a Pena de Morte não é má ideia


Como representante da gente de bem deste País, o membro da Classe Média é contra a violência e pode provar isso, com muitas fotos em que veste branco nas “passeatas pela paz”. Mas quando se traz à baila o assunto “pena de morte”, normalmente se encontra na Classe dois tipos de posicionamento: os simpatizantes e os defensores.

Por ser um assunto polêmico, se você abordar um médio-classista, assim de repente, perguntando a opinião sobre o assunto, não vai ouvir dele, logo de cara, a aprovação a tal recurso penal. Sabendo que este é um tema delicado, ele ficará cheio de dedos e se mostrará inconclusivo, buscando argumentos para justificar a pena de morte, mas sem mostrar que partido toma. Para o aspirante à Classe Média, esta é uma grande oportunidade para ser aceito no grupo. Tudo o que o médio-classista interpelado precisa para sair da defensiva é de um impulso: diga logo a ele que você é a favor, sim, da pena de morte. O médio-classista vai te considerar imediatamente um de seus pares e, morrendo de vontade que estava, vai soltar a língua. Esteja preparado.

A primeira característica da pena de morte que promove a empatia do médio-classista é a sua existência e aplicação nos Estados Unidos, supra-sumo mundial entre os países e modelo número um de sociedade e de comportamento. Sendo lá um lugar onde tudo funciona, é justo imaginar que a aplicação da pena de morte seja um elemento disciplinador responsável pela ótima organização daquele país, cujo sistema judiciário é tido em alta estima pelo médio-classista. Algo como um sistema à prova de falhas e que nunca erra.

A grande justifica para ser a favor, entretanto, é o fato de que, para a Classe Média, atentar contra o patrimônio alheio é o pior crime que existe, e criminoso bom é criminoso morto. Mas não se engane com o aparente simplismo deste argumento. Todo médio-classista é adepto e admirador do “planejamento”, o que faz da pena de morte uma ferramenta não apenas para os bandidos comprovados, mas também para os criminosos em potencial.

É isso mesmo: para a Classe Média, a solução para este país é uma limpeza geral, eliminando mendigos, prostitutas, sem-terra, miseráveis, favelados, pessoas feias e desempregados. Ainda não se sabe quem ficaria responsável por lavar o carro e as panelas da Classe, mas pelo menos se evitaria problemas de grande repercussão, porque os filhos adolescentes não teriam a quem queimar ou espancar nos pontos de ônibus madrugadas adentro.

Portanto, se você quer mesmo ser da Classe Média, a pena de morte tem que parecer a você como uma boa idéia, mesmo você sabendo que ela nunca será implantada aqui, porque neste país nada funciona mesmo.




Estamos na CartaCapital

Está nas bancas a edição da CartaCapital com textos do Classe Média Way of Life. A edição conta com ilustrações de Maringoni e ainda um texto do Mino Carta pra complementar. Vale à pena conferir.


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Adendo (dia 20 de novembro): Deixem-me desfazer uma confusão: quando digo que "estamos", na revista assim no plural, me refiro a todos que fazem o Blog. Eu, Pierre, e vocês leitores. O dono do Blog é uma pessoa só, mas quem justifica a existência disso aqui são vocês que leem, que participam ou não, tanto os que gostam, quanto os que não gostam.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

dica 035 - Fazer o que "todo mundo" faz

Um verdadeiro membro da Classe Média precisa estar em sintonia com seu grupo social, principalmente quando se trata do “instinto de manada” que lhe é característico. Como qualquer rebanho, este instinto é um recurso que o grupo possui para manter e perpetuar seu modo de vida, mesmo em qualquer adversidade. Como forma de justificar tudo o que faz de errado, ilícito, fora do padrão ou desaconselhável, ou mesmo algo que nada tem de errado, mas não se tem a mínima vontade de fazer, o médio-classista sempre pode apelar para o velho argumento: “todo mundo faz, então não tem problema se eu fizer”.


Isto se aplica às mais diversas situações e dificilmente você encontrará alguma em que não possa usar. Funciona quando alguém faz qualquer coisa que não era pra fazer, e é seguido por um segundo alguém. A partir do terceiro alguém, todos podem fazer uso desta maravilhosa estratégia: o que não era pra ser feito passa a ser “permitido”. Já a décima pessoa nem está com vontade de fazer, mas faz porque é permitido. E da décima quinta em diante, não se sabe mais por que se está fazendo aquilo nem por que começou, mas faz assim mesmo. Em resumo: não importa o quanto algo seja errado, quando todo mundo faz, este algo passa imediatamente a ser certo. E se esperar mais um pouco, em alguns minutos o que era certo vai virar algo como uma “obrigação social”.


As aplicações para esta ferramenta são muitas: estacionar em fila dupla, comprar um produto que não precisa, deixar de assinar a Carteira de Trabalho da empregada, comer no McDonalds, sonegar imposto, beber e dirigir, gostar de música sertaneja.


Na faculdade, por exemplo, o médio-classista acompanhou “todo mundo” e também usou drogas, passou trotes violentos nos calouros, dançou pelado e bêbado em cima da mesa, pagou para alguém fazer seu trabalho. No dia-a-dia da vida, ele vai votar em quem a Classe está votando nas eleições, vai arrumar um emprego só porque tem algum padrinho (mas dizer a todos que foi por mérito), viajar para o mesmo lugar que todo mundo, enfrentar fila pra comer no restaurante da moda.


Portanto, não importa o que você fizer. Caso se encaixe no que “todo mundo” faz, o que quer que tenha feito é plenamente justificável e ninguém o questionará. Pelo menos ninguém da Classe Média.

sábado, 7 de novembro de 2009

dica 034 - Tomar remédio para depressão

*Sugestão coletiva da caixa de comentários e do e-mail. Obrigado a todos que colaboram.

Uma coisa que o aspirante à Classe Média tem que saber: dizer a todos que leva uma vida difícil. Na lógica médio-classista, sofrer de estresse com o trabalho e martirizar-se pagando impostos para manter o carro e a empregada faz com que a pessoa emane respeito e admiração. Por isso, nada melhor do que tornar-se um deprimido para em seguida poder tornar pública esta condição.

A melhor maneira de mostrar a todos que você carrega o mundo nas costas é ser consumidor de antidepressivos de tarja preta. Ao comprar um destes, imediatamente você será associado a “trabalho” e “dignidade”. Os médio-classistas em volta construirão uma imagem mental de você, imaginando-o mantendo a caríssima escola dos filhos, o caríssimo curso de Yôga da esposa, a caríssima fatura do plano de saúde. E inclusive tomarão seu partido e ficarão indignados com a quantidade de impostos que você ainda tem que pagar.

Muitos médio-classistas moderados recorrem também a psicólogos. Isso ocorre quando o cidadão não tem coragem suficiente para recorrer à química, mas carrega a necessidade de gastar dinheiro para fazer a citada publicidade de sua “miséria”. Tal método com certeza atinge, de certa forma, este objetivo, mas o destemido que vai direto ao psiquiatra para buscar a receita de seu comprimido obtém ganhos muito mais expressivos em sua reputação.

É bom saber que antidepressivos também têm outra importante função, além de publicar seu sofrimento em troca de status social. O antidepressivo é uma espécie de “entorpecente legalizado”, algo como a mistura de maconha (para relaxar) com cocaína (para criar a necessidade de consumir sempre). Com ele, o médio-classista pode se drogar à vontade e, mesmo assim, continuar falando mal de traficantes e usuários das outras drogas que a lei não permite. Além do mais, se você é da Classe Média, você tem direito. Afinal, como bom observador, culto, inteligente e esclarecido que o membro da classe é, ele sabe que vida boa é a de pobre: não paga escola pros filhos, nem plano de saúde, nem prestações e manutenção de carros caros, e nem impostos. Logo, está aí uma grande justificativa pra tomar o remedinho: felicidade é coisa de pobre.