quarta-feira, 30 de setembro de 2009

dica 031 - Pagar pau pra gringo

Se existe um tipo de pessoa pela qual a Classe Média nutre a mais sincera devoção e idolatria, estes são os gringos. Gringos, para o médio-classista, são como seres de outro mundo, seres iluminados de uma esfera superior, de um planeta onde tudo é ao contrário do Brasil: não há pobres, o trânsito funciona, todo mundo é educado, as ruas são limpas e todo mundo é bonito e veste marcas conhecidas.

Quando um gringo vem ao Brasil, a Classe Média se apressa em fazê-lo se sentir o mais confortável possível. Ele passa a ser o centro das atenções. Se for um intercambista, ficará no melhor quarto da casa do hospedeiro. A comida terá um incremento inédito de qualidade, a limpeza será realizada com o maior apuro possível, e muitas vezes até a decoração terá que mudar, de modo a denotar que os donos da casa, apesar de brasileiros, possuem refino e bom gosto. Se for turista, fará também a alegria dos comerciantes em geral.

Nossa Classe Média mostrará como podemos ser um povo bem hospitaleiro (aliás, esta talvez seja a única situação na qual o médio-classista se incluirá na definição de "povo"). O gringo se surpreenderá com o esforço que as pessoas farão para se comunicar com ele em inglês, ao invés de ele ter que seguir o caminho normal, aprendendo um mínimo do idioma local. O gringo será sempre a companhia mais desejada em público. O status de ser amigo de um estrangeiro, entre a Classe Média, não tem preço. Se você tiver esse privilégio, aprendiz de médio-classista, terá que fazê-lo demonstrando, com o olhar e o sorriso altivo, aquele sentimento de estar um patamar acima dos seus iguais. Enquanto for coadjuvante de gringo, você despertará a inveja e o respeito nos corações da Classe.

Logicamente, para se encaixar na categoria “gringo”, nem todo estrangeiro é permitido. A prioridade, claro, é para estadunidenses e europeus ocidentais. Depois vêm os naturais de países anglófonos “de primeiro mundo”, seguido pelos asiáticos “de primeiro mundo”. Pessoas de países em situação econômica pior que a do Brasil não são facilmente aceitas nesta condição. Neste caso, é bom que seja uma pessoa loira. Mas, na falta de um gringo "tipo A" para esfregar na cara do resto da Classe Média, até argentino está valendo.

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Nota:

A demora na postagem teve motivo. O Classe Média Way of Life foi temporariamente bloqueado pelo Blogger, na suspeita de desrespeito aos Termos de Serviço. Após o pedido de análise, ainda tive que esperar alguns dias antes que o engano fosse constatado. Blog liberado, vamos em frente com a carruagem.

domingo, 20 de setembro de 2009

dica 030 - Praticar o "cada um por si" no trânsito

Para quem quer se comportar como a Classe Média brasileira, um ótimo ambiente de observação é o trânsito de nossas grandes cidades. Ali podemos estudar, por imersão total e com riqueza de detalhes, os valores deste peculiar grupo social.

O médio-classista encara o trânsito como se fosse uma grande batalha em defesa do seu direito individual prioritário de ir e vir, o que significa que cada indivíduo da Classe, no trânsito, tem prioridade um sobre o outro e vice-versa (numa estranha equação ainda não resolvida pela matemática). E todos têm prioridade sobre os pedestres (este ponto já é bem mais fácil de entender).

Para encarar o trânsito, cada cidadão da Classe deve estar equipado com seu carro. Se uma moradia médio-classista possui, por exemplo, 4 habitantes em idade para serem condutores, o ideal é que ali haja 4 carros. O carro é uma importante propriedade desses cidadãos, e seu interior é seu mundo particular, uma extensão de sua casa sobre rodas. Por isso, o carro para este público precisa ser equipado com "insulfim", equipamento de som, ar-condicionado e lugar para no mínimo cinco passageiros (para levar objetos e peças de vestuário, uma vez que raramente o carro do médio-classista trafega com mais de uma pessoa além do motorista). Tudo isso garante que o que realmente importa (o mundo particular do condutor) esteja muito agradável, a fim de evitar o contato com o mundo exterior, totalmente desprezível. Para este, há um mecanismo de comunicação denominado buzina.

Você, aprendiz de médio-classista, precisa aprender que, para ser da Classe, é necessário se revoltar com as atuais condições do trânsito. Assim, no seu papel de cidadão politizado e pagador de impostos, deve exigir das autoridades que abram espaço na cidade para mais carros. Que desapropriem, botem a cidade abaixo, mas garantam a duplicação das vias até resolver o problema (o que provavelmente será quando a cidade for um grande plano de asfalto). Fique revoltado também pelo fato de o Governo se preocupar mais em, violentamente, coibir seu direito sagrado de ingerir álcool, do que abrir mais acessos pro seu carro trafegar mais rápido.

Também é preciso aprender a se comportar neste ambiente. Se você quiser se parecer realmente com alguém da Classe, ande sempre na frente dos outros. Se alguém sinalizar que quer mudar de faixa e ficar à sua frente, mesmo que você esteja um pouco longe, acelere loucamente para passar à frente dele antes que ele realize a manobra. Logo, sabendo que todos agirão assim, dispense o uso da seta (pode até pedir o mecânico para desativar a sua). Você não tem que dar satisfações sobre pra que lado vai virar ou se quer ou não mudar de faixa.

Portanto, aspirante, o primeiríssimo passo para entrar na Classe é abandonar o transporte coletivo, o metrô e até mesmo a bicicleta (esta somente pode ser usada para lazer, e mesmo assim, deve ser transportada de carro até o local do uso). No transporte coletivo você está num espaço público, sujeito a ficar perto de pobres e nada ali é "só seu". É muito melhor que você trafegue dentro de sua bolha de vidro e metal, "privatizando" (aprenda a adorar esta palavra) cerca de 10m² do espaço público, com uma máquina de 1000kg que queimará petróleo para transportar uma pessoa de 70kg, a fim de garantir seu merecido bem-estar até seu destino. Você tem direito, você é da Classe Média.

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Imagem retirada do blog Idealismo de Buteco: o espaço ocupado por 54 pessoas, sendo 1) cada uma em seu carro; 2) todas num ônibus; 3) cada uma em uma bicicleta.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

dica 029 - Afirmar que não existe racismo no Brasil

Para se tornar um genuíno membro da Classe Média brasileira, você não pode ser racista. Simplesmente porque, na ótica da Classe, o racismo não existe no Brasil. Não existe privilégio para nenhuma raça, tudo se pode conseguir através do esforço e do trabalho, seja a pessoa médio-classista ou negra. Convença-se disso.

Racismo hoje, talvez só nos Estados Unidos. Ali sim já se praticou racismo "do bom", racismo "de raiz", onde qualquer um pode encher um neguinho de porrada ou atear fogo na casa dele quando quiser... Mas hoje, nem lá as coisas são como eram... o presidente deles é negro, então os negros não têm do que reclamar.

Tome cuidado! Essa história de cotas, de segregação racial, de discriminação e tratamento diferenciado não pode afetar sua culta percepção do mundo, a percepção de quem recebeu uma bela educação paga nos melhores colégios católicos. Você dever entender isso como mera coisa de livros de História, coisa que ninguém lembra mais, da época em que trouxeram os negros escravizados da África, situação que logo mudou quando a Princesa Isabel assinou a tal parada, e desde então brancos e negros têm acesso ao que quiserem em igual condição.

Para demonstrar a seus estimados colegas da Classe o quanto você faz por merecer a aceitação no grupo, discuta, sempre que surgir o tema, sobre como os negros simplesmente não querem estar na mesma posição dos brancos (lembre-se de representar uma "indignação analítica contida" quando disser isto). Você causará suspiros de admiração, será ouvido e respeitado por seus pares. Argumente que, se você conseguiu chegar onde chegou, qualquer negro também conseguiria, pois este é um país onde o mérito funciona e é a base de tudo. Diga que você acha estranho, mas talvez, por uma questão de gosto pessoal, eles prefiram jogar capoeira a ir para a Universidade (novamente contenha a indignação de palestrante culto). E dê o veredito: se os negros estão reclamando, botando a culpa nos brancos, querendo cotas, se organizando em grupos culturais, movimentos de ações afirmativas e bandas de música black, eles é que são racistas! (neste ponto, você fica autorizado pela audiência a ignorar a autocontradição).

Por fim, para dar o golpe de misericórdia e carimbar de vez se passaporte ao mundo da Classe Média, fale sobre sua relação com os negros. Decore: você não deve ter nada contra nem a favor deles. Você os trata como qualquer pessoa, e às vezes, com humilde magnificência, até dá bom dia ao jardineiro do prédio e à diarista. Você não namoraria uma pessoa negra, mas até daria uns pegas (se ela não contasse pra ninguém). Você acha que o Governo tinha que criar Escolas Técnicas para "capacitar" pessoas para o trabalho manual, o que é uma ótima alternativa para os negros arrumarem empregos. Defenda o ponto de vista que explica que as Universidades, as vagas de Juiz de Direito e a alta sociedade têm pouquíssimos negros apenas por coincidência, ou até mesmo uma questão estatística: eles existem mesmo em menor número, tanto que você quase não os vê nas festas que frequenta. E, no final, você deve rir dizendo que ainda tem gente que acredita nessa baboseira de "casa grande" e "senzala".

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

dica 028 - Comprar os Best-Sellers

Para o médio-classista, é muito difícil arrumar um tempo pra ler. A vida atribulada, os negócios, a ralação diária para garantir as contas pagas (graças a Deus), os filhos, a faculdade, nada disso deixa tempo para uma boa leitura. Mas isso tem que ser feito, afinal, a superioridade intelectual é inerente à Classe, e não há como declamar nas seções de cartas da revista semanal sobre a falta de instrução do povão se você não ler seus dois livros anuais.

Quem não tem tempo para ler tem que ser seletivo, e ser seletivo é uma especialidade do cidadão da Classe. Então, para que todo mundo na Book Store saiba que você é Classe Média, vá direto aos Best-Sellers. Ali você terá segurança para escolher um livro "da moda", um livro que fará todo mundo no seu trabalho te admirar, um livro que todos quererão emprestado. Apareça com algum best-seller da semana e incremente sua reputaçao tanto de "culto" quanto de "antenado", igual àquele cara que introduziu O Código da Vinci na turma do escritório. A lista dos mais vendidos nunca erra.

O leitor médio-classista, antes de tudo, é um eclético. Não importa o tema, não importa o autor: o que estiver na moda, se vender muito, ele compra. Mas sempre há os gêneros que fazem mais sucesso: mistério, esoterismo, espiritismo, política, auto-ajuda sempre são considerados bons livros. Mas se você quer mesmo é botar pra quebrar, pode ir às últimas consequências do médio-classismo e apelar para os "gênios" deste público: Paulo Coelho, que tem mistério, esoterismo e auto-ajuda, tudo misturado; Ali Kamel, que junta política e ficção; Dan Brown, só porque escreveu o tal Código... Mas se você, aspirante à Classe, persiste num impasse diante de tantas boas opções da banca de Best Sellers, atente a um macete que nunca falha: na dúvida, compre o que tem a capa mais bonita.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

dica 027 - Ter medo

Você nunca será um membro da Classe Média de verdade, se não compartilhar um nobre sentimento com seus colegas: o medo. O médio-classista, por definição, é um amedrontado por natureza. Isto advém do fato de que, para ser uma pessoa privilegiada ("graças a Deus, mesmo com todas as dificuldades"), é necessário que exista alguém em uma condição inferior, ou seja, "que não goste de trabalhar nem estudar" e por isso não tenha uma vida "remediada" como a sua. E é por isso que a vida do médio-classista parece um mundinho de cristal: qualquer coisa fora do mínimo controle pode por tudo a perder.

O medo da Classe Média se baseia na preocupação com as três coisas mais importantes para a vida de uma pessoa: o patrimônio, a própria saúde e a família (nesta ordem). E graças ao hábito de se manter bem informado (lendo Veja, assistindo Jornal Nacional e Fantástico), o colega sabe muito bem que viver é perigoso. Logo, o Juninho não pode andar de bicicleta na rua, porque pode ser atropelado, desaparecer misteriosamente ou, pior de tudo, ter a bicicleta roubada. Graças a Deus inventaram os condomínios, né! E a filhinha tem que levar a máscara e o álcool em gel para o balé, porque essa gripe suína está matando mesmo, está uma loucura. Desse jeito, será preciso cancelar a viagem a Buenos Aires... humm... não.... aí também já é exagero. Como se não bastasse, a TV vai sempre te lembrar que há muito a temer todos os dias. A Dilma Roussef, por exemplo, te causará um frio na espinha, sempre que aparecer na telinha com o Bonner narrando suas barbaridades.

O lado bom é que a economia se movimenta. Afinal, donos de lojas de arame farpado e fabricantes de alarme, circuito interno de vigilância, armas, "insulfime", blindagem de carros corretores de seguros, são todos da Classe Média: também têm que pagar a escola dos filhos e o plano de saúde, e já que isso é pra te proteger desse mundo perigoso, acaba sendo um dinheiro bem investido.


Se você, aspirante à Classe Média, ainda não consegue sentir tanto medo de tudo, não se preocupe. Experimente duas semanas ouvindo a Míriam Leitão, lendo a Folha e assistindo qualquer jornal na Globo. Enquanto o medo não vem, você já pode ir adquirindo seus kits de proteção. Não ligue se não houver nenhum estranho de olho no que é seu. O principal neste momento é ostentar sua cerca elétrica, para que a vizinhança toda preste mais atenção no seu carro recém-adquirido em sessenta vezes. Quem sabe até os ladrões se interessem e façam seu investimento em segurança ter alguma utilidade prática...


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

dica 026 - Assinar TV a cabo, mas assistir "Faustão"


É obrigatório ao cidadão de Classe Média ter em casa uma assinatura de TV paga. Aí está uma uma lei social tão entranhada nos intestinos do médio-classismo, que muitos ignoram a existência da humilde "TV aberta". Os mais novos nunca tiveram contato. Os mais velhos possuem vaga lembrança. Porque pagar pelo sinal de TV , hoje em dia, já deixou de ser Hype há muito tempo, e hoje goza da condição de bem de primeira necessidade, como a carne, o automóvel e os coffee table books.


A única coisa que não mudou desde aquela época é a qualidade dos programas. Aliás, não mudaram nem os programas, porque apesar da quantidade de canais disponíveis e de uma aclamada "variedade de conteúdo", a Classe Média quer saber mesmo é de novela, Jornal Nacional, Fantástico e os mesmos jogos de futebol de sempre. Tanto que existem canais que existem simplesmente para repetir a programação dos abertos em horários alternativos

Portanto, você que é aspirante à Classe, cuidado: se alguém for à sua casa e o vir mudar de canal apontando o controle remoto direto para o televisor, você terá que prestar muitos esclarecimentos, como, por exemplo, explicar onde está o indispensável aparelhinho da TV a Cabo. Logo, se ainda não tiver providenciado o serviço, contenha sua curiosidade de saber o que está acontecendo no programa do Gugu durante o intervalo do Faustão.

domingo, 6 de setembro de 2009

dica 025 - Achar que "Deus" te considera melhor que os outros


O médio-classista não apenas acredita em Deus, como acredita que Deus gosta mais dele que dos outros. Não obstante sempre soltar um "graças a Deus" pra tudo que se refere a seu patrimônio, quem é da Classe justifica sua condição de privilégio com o status auto-declarado de vontade divina.

É uma espécie de herança torta das antigas dinastias e da nobreza européia, de quem os médio-classistas acreditam piamente descender em linhagem pura e imaculada. Tal qual seus espelhos (distantes geográfica e cronologicamente), eles pretendem incutir no interlocutor a idéia de que seu bom berço é uma escolha divina, em detrimento da família meia-boca de quem estiver ouvindo. Por isso, eles não se acanham em recorrer ao seu deus para as coisas mais corriqueiras de suas vidas.

Portanto, se você pretende entrar para o seleto e abençoado mundo da Classe Média, trate de colocar Deus no meio das suas frases, dizendo que é culpa Dele você possuir bens materiais, e seu empregado não.