domingo, 30 de agosto de 2009

dica 024 - Adorar amostras grátis


Se tem uma coisa que acerta em cheio o gosto da Classe Média, é a tal "amostra grátis". Pegue um produto pelo qual o médio-classista não tenha um pingo de interesse. Ofereça uma amostra grátis. Ele vem correndo.

Da mesma maneira, quem é da Classe não pode ver a moça da degustação no supermercado. Nosso personagem, com certeza, irá parar o que estiver fazendo, mesmo se tiver que pegar dez latas de cerveja e estiver na terceira. Ele vai interromper para correr até a degustação, para comer de graça um pedacinho de bolo, um copinho de suco ou seja lá o que for servido em porções mínimas.

Isto não está relacionado a necessidades físicas ou fisiológicas de fome e afins. Na verdade, a amostra grátis, ou degustação, ou mesmo comer umas quatro uvas no supermercado enquanto faz compras, dá ao médio-classista uma sensação de poder inexplicável. É uma sensação que corresponde ao que se sente quando se tira vantagem de algo, se sai ganhando, ou para os mais malandros da Classe, como se tivesse passado alguém pra trás. Comeu, bebeu, mas não pagou. Não pagou um precioso centavinho que seja. "Rá rá rá, eu sou muito esperto", terá pensado um deles bem lá no íntimo.

Também faz parte deste comportamento a corrida tresloucada para alcançar a fila da degustação. E também a briga por lugar na fila. Mas quanto a isso não se preocupe: todos os que estiverem na fila brigando são da Classe. Eles se entendem.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

dica 023 - Ser concurseiro


*sugestão de Rodrigo Cardia, do Cão Uivador

Todo médio-classista precisa de um emprego. Bom... precisar, precisar, não precisa. Mas quer. E quando médio-classista quer uma coisa, não pode ser qualquer coisa. Esse tipo de personagem é acostumado, de berço, a ter tudo o que quer, do jeito que quer. Logo, um emprego para ele tem que valorizar o que ele tem de melhor (o fato de ser da classe média) e não pode exigir dele mais do que é justo (trabalhar, por exemplo). Logo, eles deduzem que ser empregado ou servidor público é um sonho de consumo para suas pretensões.

A necessidade de emprego para a Classe Média é diferente do que para o restante das pessoas. Não é o fator financeiro que conta, afinal, a família já o sustenta. Mas para que a família o sustente, o médio-classista precisa dar uma "satisfação", sendo "útil para a sociedade" e "achando um rumo na vida". Não significa que vá ajudar nas despesas em casa. Muito menos que vá viver exclusivamente dos rendimentos deste emprego. Mas vai ficar de bem com o papai (sempre tão ocupado) e a mamãe (sempre tão preocupada).

Assim sendo, médio-classistas se postam, Brasil afora, tal qual um exército de desesperados a estudar para concursos públicos diversos. O bom disso é que só o fato de estudar já é considerado, pela família, como uma ocupação. O período de estudos, que pode levar alguns anos, é tido como a própria profissão do médio-classista em questão. A família paga cursinhos, material didático, inscrições, viagens e o que mais for necessário, para que ele fique treinadinho da silva e conquiste, um dia, uma vaga na repartição. E lógico, também paga para que nosso personagem alterne baladas diversas, turismo e diversões das mais variadas posições em relação à lei. Afinal, ele nasceu na Classe Média. Fez por merecer.


dica 022 - Achar que seus empregados têm que gostar de você

Ser da Classe Média não é só ter empregados. É achar que os empregados têm que lhe dedicar a mais pura e sincera amizade. Afinal de contas, essa pessoa precisa estar o dia inteiro no âmago do seu lar, pois nossa tecnologia ainda não permite que se faça serviço doméstico não-presencial. E, convenhamos, ignorar a presença de uma pessoa por tanto tempo é muito cansativo.
A amizade, para o médio-classista, é um pouco diferente daquela idéia clássica que todo mundo tem. Quem é da Classe sabe que "amigo" é a pessoa que te faz ou que te deve um favor: uma indicação para um emprego, uma vaga para o filho naquela escola concorrida, uma dica de imóvel para investimento, etc. Portanto, para as atividades que no cotidiano se contaria com os amigos, nossos heróis, não tendo com quem contar, aproveitam que já estão gastando dinheiro mesmo e adotam seus empregados por amigos-confidentes.
A escolha de um motorista, empregada doméstica ou caseiro precisa ser bem criteriosa. Além das capacidades técnicas para a execução do serviço, essas pessoas precisam gostar de você, respeitar seu cônjuge e adorar seus filhos. Tem que estar disponível a qualquer momento para os desabafos, os xingamentos, os choros, no melhor estilo válvula-de-escape. E claro, tem que custar barato, afinal os encargos trabalhistas são um roubo para quem emprega.
O melhor de tudo é que a contrapartida não existe. Você não será obrigado a conhecer as lamúrias do serviçal, até porque se você deixar ele vai se fingir de triste, e dizer que mesmo com aquela vida boa que ele leva, é capaz de ter problemas. Ainda bem que ouvir não faz parte do protocolo. O empregado só precisa estar do lado, ouvir, acenar com a cabeça, concordar com tudo e no mais, ficar calado. Quem já teve um cachorro sabe como é a experiência.