sábado, 25 de abril de 2009

dica 010 - Ter sobrenome italiano

Grande parte da Classe Média brasileira tem sobrenome italiano. Logicamente que existem muitos casos de origens em outros países europeus, mas o descendente de imigrante italiano é, por excelência, o médio-classista brasileiro padrão.
Dizer a todos que você tem ascendência italiana vai fazê-lo ser respeitado. Isso porque ninguém dá moral pra quem é nascido de uma família tipicamente brasileira. Não é nada chique, não causa impacto nem tampouco sensação. Afinal, você não gosta deste país, lembre-se disso. E nem quem tem sangue italiano, porque o país deles é muito melhor que o nosso. Se alguém perguntar por que eles vieram pra cá, mude de assunto, afinal, o foco da conversa não é este.
Com um sobrenome italiano, você pode também encher a boca pra falar que o brasileiro é preguiçoso, pois os italianos trabalharam muito e hoje estão bem de vida. E quem disser que eles estão assim hoje por causa do incentivo do Governo Brasileiro, a doação de terras, o fomento à organização em enclaves, é um invejoso. Também torça o nariz se alguém questionar a ética e sugerir práticas ilícitas na acumulação de patrimônio. Dorzinha de cotovelo é dureza!
Portanto, se você quer fazer parte da seleta classe, inclua na sua assinatura algo como Rondelli, Lasagna, Risolli, Calzone e afins. Esta é a dica de hoje, com a bênção do Patrino. Porca miséria!

terça-feira, 21 de abril de 2009

dica 009 - Ser espírita

Para ser um médio-classista padrão, você deve ser espírita. Não interessa se você tem outra religião.
A Classe Média, em geral, é católica. E ser católico significa comparecer à Missa aos domingos (claro que nem todos), para que todos te vejam com a roupa de sair no fim-de-semana. Esta religião não requer muito compromisso nem conhecimento, basta você dizer que acredita em Deus "do seu jeito".
Mas a religião mais Classe Média, de longe, é o espiritismo. Se o catolicismo não requer compromisso, o espiritismo dá de dez em liberalismo. Isso porque esta doutrina te permite ser de qualquer outra religião ao mesmo tempo. Quase todos os espíritas são católicos ou praticam outra religião paralela. Quem não o faz, é considerado um xiita. E médio-classista que se preza não é xiita em nada.
Entender o espiritismo não é difícil. Toda a sua doutrina se baseia no fato de que quem é da Classe Média, é mais inteligente que todo mundo. É uma religião que se diz calcada em fatos "científicos", como a vida após a morte, a volta do mundo dos mortos, e a levitação da alma fora do corpo, e outros eventos cientificamente comprovados.
O principal mote dessa religião, no entanto, está em justificar o motivo de você ter uma boa condição de vida (mesmo "sem ser rico"). De acordo com os métodos científicos do espiritismo, todo mundo encarna e reencarna várias vezes, e toda vez que se encarna, vai-se ganhando pontos pela experiência. Assim, quem hoje é inteligente, bonito e rico, é porque é mais "evoluído" que os pobres, feios e que não estudaram, pois ganhou mais pontos nas fases anteriores. Ou seja, se seu pai é rico (digo, "remediado"), você pode se considerar mais evoluído que o porteiro do seu prédio (que deve ter feito burradas nas fases anteriores e não ganhou muitos pontos).
Portanto, não é nada difícil entender o espiritismo. Só não entende quem é burro. E na Classe Média não tem burro, afinal, ali todo mundo já matou muito chefão-de-fase nas vidas anteirores.

domingo, 19 de abril de 2009

dica 008 - Ter um Pet

Existe uma espécie de regra para admissão na Classe Média, que consiste em ter um "Pet".
Um Pet é uma espécie de cachorro de estimação (podem ser outros animais que nada produzem também, como gatos e pássaros), onde todo o trabalho de tratamento e manutenção do bichinho é terceirizado.
Para ter um Pet, é necessária uma série de cuidados. A começar pela aquisição. Pets só podem ser comprados em canis especializados, com uma série de documentos de comprovação da dinastia do animal (sim, eles têm sobrenome). Adquirido o Pet, será necessário contar com um serviço de "Pet Shop", onde o bichinho irá toda semana para manutenção e higiene. Neste estabelecimento também será possível encontrar uma dúzia de artigos obrigatórios, como roupinhas, brinquedos, coleiras com corda retrátil, ossos de mentira e tudo que é produto para que o animalzinho seja um Pet, e não um cachorro (quem tem cachorro é pobre).

E também é necessário ter uma empregada, para alimentá-lo, fazer carinho e passear com ele. A empregada também deverá ser responsável por incluir nas compras o alimento do bicho, que deve ser uma ração própria para a cor, a idade, a raça, o porte, a temperatura ambiente média e o timbre do latido.
O Pet é como um membro da família. Pode assistir televisão no sofá, abrir a geladeira, dormir na cama dos donos e até ganhar beijo na boca. Por isso, às vezes você terá que ter jogo de cintura para conter o ciúme da emprega, que também é da família, mas logicamente demanda menos investimento que o Pet, além de não poder assistir televisão no sofá. Se isso acontecer, a solução é simples: diga a ela que se houver conflito entre ela e o Pet, a família terá de abrir mão de um dos dois. E ela vai saber quem vai dançar caso você se zangue.

sábado, 18 de abril de 2009

dica 007 - Fazer a sua parte para combater a Crise Mundial

A Classe Média está borrando as calças de medo da crise. Nada melhor para aprender como se comportar nessas situações, do que observando-a agir em prol da Humanidade para conter a temida depressão econômica que vem chegando ao Brasil.
A palavra de ordem é "corte". Os médio-classistas vão cortar gastos em tudo o que for possível: salário da empregada, na conta do Pet-Shop, abastecer com ácool ao invés de gasolina, ir ao salão de 10 em 10 dias ao invés de a cada semana, trocar Häagen-Dazs por Kibom, beber vinhos sul-americanos e outros sacrifícios.
O sacrifício maior, todavia, será feito pelos arautos da bondade humanitária, que são os empresários, aqueles mesmos que enchem o mundo de justiça dando emprego aos necessitados. Na ótica desses deuses, os funcionários que tiverem a honra de continuar no emprego, ouvirão de seus líderes médio-classistas as razões para a justa redução dos salários. Afinal, todos estão juntos no momento de crise, todos têm que dividir as perdas. E isso significa continuar trabalhando, mesmo ganhando menos. Afinal, sem trabalho, sem geração de renda por suas empresas, fica difícil passar fim-de-semana em Ilhabela, Angra ou Escarpas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

dica 006 - Ler a Revista Veja

Se você quer ser da Classe Média, Veja é leitura obrigatória. Não é uma revista qualquer, é uma espécie de "manual de conduta". Na verdade, esta revista facilitará muito a sua vida, porque ela serve como guia para você pautar suas opiniões.
Na verdade, a parte das "suas opiniões" será muito facilitada, porque você não precisará elaborá-las. Tudo o que você precisa pensar sobre qualquer coisa e qualquer pessoa, principalmente na área da política, estará detalhado nas páginas da revista.
Destaque para o time de colunistas, como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, que você não deve hesitar em ter como gurus. Em qualquer roda de amigos médio-classistas, basta citar alguma opinião desses dois para dar início a um animado debate-de-comadres, daqueles em que todos concordam entre si, mesmo que indignados com os fatos da vida neste país onde vocês odeiam viver.

terça-feira, 14 de abril de 2009

dica 005 - Fazer cursos de idiomas (e não aprender)

Fazer cursos de idiomas faz parte da vida do médio-classista. E não aprender nada com eles, também.

Normalmente, o cara que faz um curso de idiomas que lhe custe R$200,00 mensais aprende tanto quanto aprenderia se passasse 1 hora por dia pesquisando sobre isso na internet.

Mas o jovem da Classe Média, como medida de auto-promoção, precisa frequentar estes cursos. Lá, se não aprenderem a falar inglês, pelo menos aprenderão experiências de vida: contato com colegas que não são do colégio ou faculdade (mais sobrenomes importantes na lista de amigos), facilidade para agendar visitas ao exterior (normalmente estas escolas oferecem algo neste sentido), e o direito de reclamar que a mensalidade do curso é muito cara.

Geralmente se têm a idéia errada sobre a finalidade deste tipo de curso, principalmente por pessoas que insistem que eles deveriam é ensinar a pessoa a falar o idioma. Mas para isso, o médio-classista clássico possui outra ferramenta: a viagem ao exterior, que pode ser "para dar um tempo", ou para "crescimento pessoal" (esta última, a mais indicada).

segunda-feira, 13 de abril de 2009

dica 004 - Nunca admitir que é rico

Você, no decorrer da sua vida na condição de membro da Classe Média, pode se deparar, qualquer dia, com pessoas dizendo, assim, na cara de pau, que você é rico. Antes de perder as estribeiras com tamanho absurdo, controle-se, respire fundo, contenha seus instintos, e só depois passe às fases seguintes: negação e argumentação.
Primeiro, negue: diga que você não é rico, nem de longe. Depois, argumente: você trabalha muito duro para conseguir as coisas. Só a prestação do seu carro, por exemplo, dá o preço à vista de muito carrinho que tem por aí. E a escola das crianças? A cada ano a mensalidade, que já é caríssima, sobe mais! Sem contar o que você paga para os empregados, uma fortuna! Se pegar o que gasta com as aulas de tênis, de inglês e de balé da filha, o que sobra? Desse jeito, meu amigo, tem como ser rico?
Se seu interlocutor ainda não estiver convencido, dê o golpe de misericórdia: reclame dos impostos. Explique como seu dinheiro vai embora quase todo em impostos, e quase que você não consegue trocar seu iPhone esse ano! Duvido que ele não ficará comovido!

dica 003 - Gostar de festas com "ambiente selecionado"

Quem quer ser da Classe Média não pode ficar frequentando qualquer festa. O requisito principal para escolher a balada é o "ambiente selecionado". Se você tiver dificuldades para definir, entre algumas opções, qual a melhor festa para ir, não titubeie: escolha a que cobre mais caro.

A hora do lazer é sagrada para os médio-classistas, e é de suma importância ter a liberdade para exibir todos os objetos e quinquilharias que fazem da pessoa um membro da Classe. Itens como tênis, bonés, celular, iPod, carro, bermuda (para os homens), e cabelo, maquiagem, vestido, bolsa, sapato, celular, iPod e carro do acompanhante (para as mulheres), devem ser exibidos sem medo de que os famintos venham incomodar e tentar roubá-los. Afinal, todo o investimento foi feito para causar inveja nas pessoas, e não constrangimento. Logo, as pessoas-alvo da sua exibição devem ter o salário maior que pelo menos duas peças de roupa que você esteja usando ao mesmo tempo.
E tem outra: você, como médio-classista, não pode correr o risco de encontrar o filho da empregada, que tem a sua idade, na mesma balada. Se seus amigos souberem, isso será mal classificado e com certeza você perderá pontos na turma. E já que você sabe quanto a sua empregada ganha (pergunte ao seu pai, ou vá no Google e digite "salário mínimo"), atente bem ao preço da entrada (+consumação) antes de encarar qualquer noitada.

domingo, 12 de abril de 2009

dica 002: Ser contra as cotas para negros nas Universidades

Médio-classista que se preza, é absolutamente contra as cotas para negros nas Universidades Federais. Afinal de contas, se você foi melhor no vestibular, é injusto que alguém ganhe sua vaga só porque é negro.

Para defender sua posição, não meça esforços. Qualquer argumento, qualquer um mesmo, vale. Até dizer que as cotas são piores para os negros, porque neste caso eles não terão a chance de provar que podem ser tão inteligentes quanto os filhos da gloriosa Classe Média.
Enfim, para mostrar que você, aspirante à Classe, tem coração e não quer apenas garantir o seu lado, sugira alternativas! Você pode sugerir que os negros frenquentem os mesmos cursinhos que as pessoas que normalmente são aprovadas frequentam. E também dar uma bronca neles por causa da falta de iniciativa, afinal, você vê os filhos da Classe Média estudando anos a fio em cursinhos, e praticamente não vê negros lá! Como é que eles querem entrar na Federal assim???
(Foto: Escravos Macerando Mandioca - Foto: Victor Frond, Rj - c. 1858 / Biblioteca Nacional. encontrado em www.espacoacademico.com.br/019/19calves.htm)

dica 001 - Achar o Brasil um lugar horrível de se viver

Para ser um membro da Classe Média "de raiz", você deve achar este país um amontoado de absurdos, que o deixam, na acepção da palavra, impraticável. Portanto, afim de obter êxito em se tornar um médio-classista, exercite sua capacidade de se indignar profundamente com o que há de errado neste país.
Afinal, aqui nada funciona. O médio-classista típico tem que achar um crime contra sua pessoa viver num país que tenha filas, pobres, assaltos e impostos. Se fosse na Europa, não seria assim. Nos Estados Unidos, idem. O que esperar de um país no qual você não pode andar com iPod, tênis Nike, camiseta Lacoste e boné da Diesel, sem ser incomodado por desocupados que querem te usurpar dos seus bens? E afinal, por que esse pessoal, ao invés de pedir esmolas, não vai trabalhar e comprar seus prórpios iPods, Nikes, Lacostes e Diesels?? Diante disso, conclua que o Brasil não vai pra frente porque o povo não quer trabalhar!

Mas atenção! Ao seguir esta dica, cuidado para não cair na armadilha do exagero! Apesar de você odiar este país, e mesmo tendo condições, mudar-se daqui não deve entrar em cogitação. E você nem deve sugerir isto para seus amigos igualmente membros da classe. Sair do Brasil sem ser turista, só se for pra "dar um tempo" ou para obter "crescimento pessoal", mas isso é assunto para outras dicas, que serão detalhadas num outro dia.