domingo, 1 de agosto de 2010

A próxima atualização deve demorar um pouco

Fala pessoal.
Eu não morri não. Apenas tive uma porção de motivos para não poder dar atenção ao Blog. Nada grave, ainda bem.
Enfim, tenho recebido muitos e-mails e dei uma olhada na caixa de comentários. Percebi que muita gente tem esperado textos novos.
Infelizmente, neste momento ficarei um pouco afastado.
Mas o blog não acabou. Novos textos virão, mas não convém ficar esperando, porque isso deve demorar.
Obrigado a vocês.
Até breve (assim espero).

quinta-feira, 8 de abril de 2010

dica 044 - Fazer um "sacrifício" na sexta-feira santa


A Classe Média brasileira, como se sabe, tem muito orgulho de sua formação religiosa baseada no catolicismo. Médio-classista que se preze é católico. Católico pra cacete. É católico até quando é espírita. Por isso, mesmo sabendo que catolicismo não é lá algo que se pratique, o aspirante à classe deve estar atento aos poucos momentos em que é necessário provar à sociedade a sua fé: os feriados religiosos.

A sexta-feira santa, ou sexta-feira da paixão, simboliza para os cristãos a lembrança da imolação e morte de Jesus, o filho de Deus para os seguidores dessa fé. A tradição católica prega que, por ter Jesus sofrido muito, todo mundo precisa dar uma sofridinha junto nesse dia, como forma de gratidão e, quem sabe, solidariedade para com o cara.

Para padronizar a coisa toda, algum figurão da Igreja definiu que a penitência a que os fiéis deveriam se submeter, seria se abster do consumo de carne vermelha. A razão disso tem muitas explicações, e nenhuma faz lá muito sentido (coisas do tipo “Jesus sangrou, portanto você não pode comer algo que tenha sangue”). Aí um espertinho, provavelmente um advogado, descobriu uma brecha na lei: peixe não tem sangue (infelizmente não tive acesso à defesa técnica deste achado biológico). Pronto: aceito o argumento, juridicamente, peixe poderia ser comido na tal sexta-feira, sem maiores conseqüências.

Deste ponto em diante, o que se seguiu foi a tradição. Desde então, o dia em que Jesus morreu, se arrebentou e se ferrou dependurado numa cruz é lembrado pelos médio-classistas católicos com muito pesar. Tanto pesar que lhes faz optar por fazer uma penitência pessoal: ao invés de comer um bife ou uma almôndega, o médio-classista, em respeito ao seu deus, contenta-se em se fartar de uma bacalhoada montanhesca, banquetes de frutos do mar, vinho branco a rodo, mais peixe, mais frutos do mar, moqueca, mariscada... Afrouxando o cinto, cabe mais camarão, um pouco de lagosta, peixe ensopado, peixe grelhado, peixe frito. 

Ao fim dessa santa orgia gastronômica, todos podem se bendizer e se orgulhar por honrarem aquele que morreu para lhes proporcionar o direito a esta singela refeição. E você, bom aprendiz de médio-classista, acompanhe-os num animado "pai nosso". E depois, reconheça: a morte do "Jéza" até que valeu à pena.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

"Atualiza essa porra, comunista vagabundo"


Depois de um chá-de-sumiço gigante, voltei pra continuar tocando esse blog. O motivo do abandono temporário foi uma quantidade imensa de trabalho acumulado, e depois, preguiça mesmo. Quando vi que a coisa estava improdutiva, considerei tirar umas férias disso aqui, com todo respeito a vocês que lêem. No final, a saída estratégica foi boa pra arejar a cabeça e voltar com novas idéias.

Enfim, pelo menos eu voltei com algumas novidades. Como as senhoras e os senhores podem perceber, o visual do blog mudou. Continua ruim como o anterior, mas pelo menos é novo, e aposto que vocês estavam enjoados do antigo. Variar de vez em quando é bom.

Outra novidade é que este blog agora tem uma conta no twitter, conforme os senhores podem observar no canto superior direito do layout. O endereço, para quem quiser serguir, é @cmwayoflife. Entrar pro twitter é uma dívida antiga que eu tenho comigo mesmo, e que uma preguiça absurda me impedia de pagar. O alcance disse aqui hoje se deve, em grandíssima parte, à turma que tuitou enlouquecidamente este link, passando-o adiante numa proporção exponencial, e hoje podemos dizer que tem bastante gente lendo, o que muito me satisfaz, apesar da responsabilidade que acarreta.

Neste mês de abril o CMWoL completa 1 ano. O tempo voa... E eu só tenho a agradecer a todo mundo que não arreda o pé daqui, inclusive os que me odeiam e me xingam o tempo todo na caixa de comentários e no e-mail. Eu me divirto muito com isso. Agradeço também aos que enviam sugestões – recebo muitas, todos os dias. Tem gente que me manda textos inteiros. Leio todos os e-mails que recebo, procuro responder a todos, mesmo com grandes atrasos. Todos são bem vindos.

E esse mês eu prometo que tem mais postagens aqui. Quem me seguir no twitter ficará sabendo das atualizações instantaneamente.

Obrigado por esperarem, e desculpem o mau jeito.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

dica 043 - Ser torcedor de escola de samba

"Anônimo disse...
caralho, atualiza essa porra, comunista vagabundo!!"


O carnaval do Rio de Janeiro tem tudo que a Classe Média gosta. Tem gente famosa, estética exagerada, grande ostentação, gringos e muito destaque na televisão. E é por isso que, no Carnaval, muitos médio-classistas se sentem à vontade para eleger uma Escola de Samba como favorita, e tal qual a paixão clubística do esporte, torcem por um bom desempenho no "campeonato" da Sapucaí. 

O principal motivo pelo gosto da Classe pelo carnaval carioca é o obedecimento aos mandamentos da sabedoria suprema do universo (a televisão). Graças ao alcance da TV, este comportamento extrapola os limites do Rio, levando a toda a Classe Média brasileira o desejo de participar daquela festa cheia de artistas e atores de novela, à voz de narradores de futebol. No carnaval, o representante da Classe tem que, obrigatoriamente, demonstrar a alegria e a felicidade do povo brasileiro, é o que diz a tela mágica.

Na ânsia de ver de perto algum famoso e, quem sabe, aparecer em rede nacional, muitos médio-classistas chegam a pagar um bom dinheiro para desfilar por sua escola favorita. E outros tantos se contetam em comprar uma camisa de sua agremiação e apenas assistir ao cortejo. Você que almeja entrar para a Classe pode usar uma dessas estratégias, mas lembre-se: você deve ignorar complemente o fato de que o nome que você grita na arquibancada, estampa no peito ou torce no dia da apuração é o nome de uma favela.

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(Problemas particulares têm me impedido de postar aqui com regularidade. No início de março a coisa estará regularizada. Obrigado a todos que continuam visitando este espaço.)

(Não esqueci a parte 2 das formaturas. Guenta aí, galera.)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

dica 042 (parte 1) - Fazer formaturas homéricas

*O tema "formatura" foi sugerido via e-mail pelo Rodrigo Cardia, do Cão Uivador, e pela leitora Camile Tesche.

Existe uma ocasião na vida do médio-classista em que ele vira artista por um dia. Desfila no tapete vermelho, sobe no palco iluminado a laser, aparece no telão, solta a voz no microfone, recebe aplausos... Não é exatamente o Oscar, mas é quase: é a formatura. Você que deseja se enturmar e fazer parte da graduada Classe Média, deve aprender que não basta ter curso superior. Um curso superior, por si só, não vale lá muita coisa. Tem que fazer uma formatura digna de superprodução de Roliúde. 

O médio-classista já entra na faculdade pensando no investimento para a formatura. Para tanto, economiza cada centavo dos vencimentos dos estágios que os amigos do papai lhe arrumam. E ainda tem que complementar, empurrando brindes vagabundos e caros para parentes e amigos, promovendo festas temáticas e fazendo coisas edificantes como “pedágios” e roubo dos trocados dos calouros. Ainda bem que o Papai Classe-Média entende a situação e banca a gasolina do carro que o filhão ganhou quando passou no vestibular.

O evento da colação de grau também serve para que o médio-classista descubra quem realmente é seu amigo. Somente um grande amigo, daqueles para qualquer ocasião, se submeteria a mais de quinze minutos desse tipo de cerimônia. A produção é, como diz a propaganda do cerimonial, o supra-sumo do “requinte e sofisticação”. Inclua-se aí uma trilha sonora de primeira, com direito a muito Kenny-G, Jean Michel-Jarre e altas doses de Enya antes do início e nos intervalos. Para a entrada triunfal dos formandos, tal qual gladiadores ensaguentados, Carmina Burana sempre cai bem. Isso quando não resolvem colocar uma música pra cada cidadão que está se formando. Aí é o teste da paciência suprema até que 70 ou 80 becados atravessem o salão, sendo filmados e fotografados em seu momento de glória, ao som da sua musiquinha escolhida, que vão desde "menino da porteira" até "I will survive".


Normalmente dotadas de uma aparelhagem monstra, essas solenidades são marcadas pela ansiedade do cerimonial em demonstrar toda a gama de recursos visuais de que dispõe. Assim, aquele laser que faz desenhos nas paredes é acionado a todo vapor, a desenhar todas as formas possíveis, num espetáculo curioso de complexo de pavão. O resultado nos faz imaginar como seria um show do Pink Floyd onde a iluminação fosse operada pela Hebe Camargo. 

 (continua...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deleite sem limites para a Classe Média (2): o filme do Lula



Você não leu errado. O filme do Lula é, sim, deleite sem limites para a Classe Média. Tudo o que o médio-classista padrão mais queria como presente para o início do ano, era um motivo bem grande pra falar mal do Lula. Graças à ambição desmedida do diretor e do produtor, à massagem certeira no ego do mandatário e à cabeça oca de uma pá de assessores presidenciais, estreou, no primeiro dia do ano, o filme sobre a vida do Presidente da República.

A se julgar que na Classe Média todos são esclarecidos e escolarizados, o que quer dizer, exatamente, que são inteligentes, e ao juntarem na mesma equação “filme do Lula” e “ano eleitoral”, há de se chegar à brilhante conclusão de que o filme tem intenções eleitoreiras. Provar a própria inteligência é um deleite para a Classe Média.

Quando o médio-classista abrir a Veja e ler que o filme é horroroso, mentiroso, exagerado e politicamente tendencioso, que transformaram um vilão em heroi, soltará um “eu já sabia” em pensamento. A confirmação de seu poder de dedução é um deleite para a Classe Média.

Quando for ao cinema assistir Avatar, e for obrigado a ver o trailler do filme do Lula, berrará palavras como “ladrão” e “cachaceiro”, mostrando toda a educação da Classe Média, que se abstém de gritar “paraíba”, “baiano” ou algum nome em referência à deficiência física do personagem, porque mamãe ensinou, na sala do apartamento, que é feio. Provar a superioridade da própria criação é deleite para a Classe Média.

Quando a Folha publicar uma matéria informando que “descobriu” que os financiadores do filme têm interesses no Governo, ficará surpreso pelo fato de empreiteiros e empresários um dia financiarem alguma coisa de olho em vantagens na relação com o poder público. Lula perverteu os coitados dos empresários! Demonstrar publicamente esclarecimento e conhecimento dos fatos é o puro deleite da Classe Média.

Não assistir o filme e dizer que o mesmo é ruim, é liberdade de expressão. Para o deleite da Classe Média, nasce um clássico do gênero “não vi e não gostei”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

dica 041 - Admirar o talento do Pedro Bial

Que o Big Brother Brasil é um programa de baixa qualidade, apelativo e aculturado, não restam dúvidas para você, médio-classista esclarecido , telespectador do Jornal Nacional e do Fantástico. Você, enquanto membro ativo da Classe Média, deve defender este ponto de vista na roda de amigos, assentindo com a cabeça e dizendo "é mesmo" enquanto seus interlocutores desqualificam a tal atração televisiva. Mas não se preocupe, este sacrifício deve durar no máximo dois minutos, até que alguém comente algum diálogo ou situação do programa. Neste ponto, todos concordarão, darão mais detalhes do acontecimento, comentarão até o penteado e a roupa dos "brothers", e em instantes, como mágica, todos se revelarão espectadores da atração global, se apoiando na desculpa de que "não tem nada melhor na tv neste horário" e "todo mundo assiste mesmo, o que é que tem?".


Anualmente engrossando (pelo jeito à força) essa  audiência, a Classe Média concorda que a cultura e a inteligência do apresentador Pedro Bial fazem o programa valer à pena. Sua superioridade intelectual fica mais evidente quando ele conversa com os participantes do programa, onde dá pra se comparar o vocabulário e as idéias das pessoas comuns, gente de bem como a gente, com os deste verdadeiro poeta. E vale à pena prestar atenção enquanto Bial transborda em lirismo nas ocasiões em que participantes são eliminados, principalmente no capricho da locução dramática. É emocionante! O Bial é o sobrinho que toda tia de Classe Média sempre quis ter: educadinho, cabelinho lambido, tem fama de inteligente, é comportadinho na escola, mas como não é seu filho, não precisa gastar seu tempo argumentando contra a sua fama de esquisito e de menino-de-apartamento.



Ainda bem que existe a televisão, para abarcar talentos assim tão extraordinários. Difícil imaginar a TV sem Bial, sem Zeca Camargo, sem o Jô e sem o Jabor. E ainda bem que existe iPod, pois assim você pode mostrar a todo mundo, além da traquitana eletrônica importada, o fato de você transportar em seu bolso aquela música/mensagem-de-fim-de-ano/poema-moderno sobre o filtro solar, que já te arrancou muitas lágrimas teimosas.