terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

dica 042 (parte 1) - Fazer formaturas homéricas

*O tema "formatura" foi sugerido via e-mail pelo Rodrigo Cardia, do Cão Uivador, e pela leitora Camile Tesche.

Existe uma ocasião na vida do médio-classista em que ele vira artista por um dia. Desfila no tapete vermelho, sobe no palco iluminado a laser, aparece no telão, solta a voz no microfone, recebe aplausos... Não é exatamente o Oscar, mas é quase: é a formatura. Você que deseja se enturmar e fazer parte da graduada Classe Média, deve aprender que não basta ter curso superior. Um curso superior, por si só, não vale lá muita coisa. Tem que fazer uma formatura digna de superprodução de Roliúde. 

O médio-classista já entra na faculdade pensando no investimento para a formatura. Para tanto, economiza cada centavo dos vencimentos dos estágios que os amigos do papai lhe arrumam. E ainda tem que complementar, empurrando brindes vagabundos e caros para parentes e amigos, promovendo festas temáticas e fazendo coisas edificantes como “pedágios” e roubo dos trocados dos calouros. Ainda bem que o Papai Classe-Média entende a situação e banca a gasolina do carro que o filhão ganhou quando passou no vestibular.

O evento da colação de grau também serve para que o médio-classista descubra quem realmente é seu amigo. Somente um grande amigo, daqueles para qualquer ocasião, se submeteria a mais de quinze minutos desse tipo de cerimônia. A produção é, como diz a propaganda do cerimonial, o supra-sumo do “requinte e sofisticação”. Inclua-se aí uma trilha sonora de primeira, com direito a muito Kenny-G, Jean Michel-Jarre e altas doses de Enya antes do início e nos intervalos. Para a entrada triunfal dos formandos, tal qual gladiadores ensaguentados, Carmina Burana sempre cai bem. Isso quando não resolvem colocar uma música pra cada cidadão que está se formando. Aí é o teste da paciência suprema até que 70 ou 80 becados atravessem o salão, sendo filmados e fotografados em seu momento de glória, ao som da sua musiquinha escolhida, que vão desde "menino da porteira" até "I will survive".


Normalmente dotadas de uma aparelhagem monstra, essas solenidades são marcadas pela ansiedade do cerimonial em demonstrar toda a gama de recursos visuais de que dispõe. Assim, aquele laser que faz desenhos nas paredes é acionado a todo vapor, a desenhar todas as formas possíveis, num espetáculo curioso de complexo de pavão. O resultado nos faz imaginar como seria um show do Pink Floyd onde a iluminação fosse operada pela Hebe Camargo. 

 (continua...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deleite sem limites para a Classe Média (2): o filme do Lula



Você não leu errado. O filme do Lula é, sim, deleite sem limites para a Classe Média. Tudo o que o médio-classista padrão mais queria como presente para o início do ano, era um motivo bem grande pra falar mal do Lula. Graças à ambição desmedida do diretor e do produtor, à massagem certeira no ego do mandatário e à cabeça oca de uma pá de assessores presidenciais, estreou, no primeiro dia do ano, o filme sobre a vida do Presidente da República.

A se julgar que na Classe Média todos são esclarecidos e escolarizados, o que quer dizer, exatamente, que são inteligentes, e ao juntarem na mesma equação “filme do Lula” e “ano eleitoral”, há de se chegar à brilhante conclusão de que o filme tem intenções eleitoreiras. Provar a própria inteligência é um deleite para a Classe Média.

Quando o médio-classista abrir a Veja e ler que o filme é horroroso, mentiroso, exagerado e politicamente tendencioso, que transformaram um vilão em heroi, soltará um “eu já sabia” em pensamento. A confirmação de seu poder de dedução é um deleite para a Classe Média.

Quando for ao cinema assistir Avatar, e for obrigado a ver o trailler do filme do Lula, berrará palavras como “ladrão” e “cachaceiro”, mostrando toda a educação da Classe Média, que se abstém de gritar “paraíba”, “baiano” ou algum nome em referência à deficiência física do personagem, porque mamãe ensinou, na sala do apartamento, que é feio. Provar a superioridade da própria criação é deleite para a Classe Média.

Quando a Folha publicar uma matéria informando que “descobriu” que os financiadores do filme têm interesses no Governo, ficará surpreso pelo fato de empreiteiros e empresários um dia financiarem alguma coisa de olho em vantagens na relação com o poder público. Lula perverteu os coitados dos empresários! Demonstrar publicamente esclarecimento e conhecimento dos fatos é o puro deleite da Classe Média.

Não assistir o filme e dizer que o mesmo é ruim, é liberdade de expressão. Para o deleite da Classe Média, nasce um clássico do gênero “não vi e não gostei”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

dica 041 - Admirar o talento do Pedro Bial

Que o Big Brother Brasil é um programa de baixa qualidade, apelativo e aculturado, não restam dúvidas para você, médio-classista esclarecido , telespectador do Jornal Nacional e do Fantástico. Você, enquanto membro ativo da Classe Média, deve defender este ponto de vista na roda de amigos, assentindo com a cabeça e dizendo "é mesmo" enquanto seus interlocutores desqualificam a tal atração televisiva. Mas não se preocupe, este sacrifício deve durar no máximo dois minutos, até que alguém comente algum diálogo ou situação do programa. Neste ponto, todos concordarão, darão mais detalhes do acontecimento, comentarão até o penteado e a roupa dos "brothers", e em instantes, como mágica, todos se revelarão espectadores da atração global, se apoiando na desculpa de que "não tem nada melhor na tv neste horário" e "todo mundo assiste mesmo, o que é que tem?".


Anualmente engrossando (pelo jeito à força) essa  audiência, a Classe Média concorda que a cultura e a inteligência do apresentador Pedro Bial fazem o programa valer à pena. Sua superioridade intelectual fica mais evidente quando ele conversa com os participantes do programa, onde dá pra se comparar o vocabulário e as idéias das pessoas comuns, gente de bem como a gente, com os deste verdadeiro poeta. E vale à pena prestar atenção enquanto Bial transborda em lirismo nas ocasiões em que participantes são eliminados, principalmente no capricho da locução dramática. É emocionante! O Bial é o sobrinho que toda tia de Classe Média sempre quis ter: educadinho, cabelinho lambido, tem fama de inteligente, é comportadinho na escola, mas como não é seu filho, não precisa gastar seu tempo argumentando contra a sua fama de esquisito e de menino-de-apartamento.



Ainda bem que existe a televisão, para abarcar talentos assim tão extraordinários. Difícil imaginar a TV sem Bial, sem Zeca Camargo, sem o Jô e sem o Jabor. E ainda bem que existe iPod, pois assim você pode mostrar a todo mundo, além da traquitana eletrônica importada, o fato de você transportar em seu bolso aquela música/mensagem-de-fim-de-ano/poema-moderno sobre o filtro solar, que já te arrancou muitas lágrimas teimosas.



sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

dica 040 - Ficar chocado quando um rico morre tal qual um pobre



Um bom método para identificar a prática do médio-classismo, consiste em analisar a reação de uma pessoa a notícias sobre morte. Neste caso, consideremos as situações onde tenha morrido alguém sem ligações afetivas ou sociais com o analisado, aquelas mortes de desconhecidos que a televisão sempre noticia.

A época da estação das chuvas, conjugada ao período das festas que vai do natal ao carnaval, é muito propícia para a prática dos métodos de identificação de médio-classista. Com ela vem a certeza de que muita gente vai partir do mundo dos vivos, nas grandes ceifadas sazonais que a Dona Morte promove durante estas datas, seja via acidentes nas estradas, deslizamentos de encostas, enchentes ou coisas do gênero. Quem quer realmente aprender a ser da Classe, que tome assento e tome nota quando perceber um médio-classista assistindo às notícias do temporal no jornal da noite.

Fundamentalmente, na ótica da Classe Média, tais fatalidades podem ser classificadas em dois tipos: a “desgraça”, algo corriqueiro e inerente à existência dos pobres e favelados, e a “tragédia que abalou a família brasileira”, que, grosso modo, vem a ser uma “desgraça”, mas com rico no meio.

A desgraça é um evento com o qual o médio-classista lida muito bem. Pobres morrem o tempo todo, das mais variadas formas. Isso é normal. Está tudo bem, desde que não seja durante o expediente ou na véspera da faxina. Mas atenção: a Classe Média tem coração. Quem quiser praticar um pouco de médio-classismo durante a cobertura televisiva de uma desgraça, deve separar meio minuto do seu dia para sentir pena. Depois, é só voltar ao que estava fazendo.

A tragédia que abalou a família brasileira, por sua vez, é algo capaz de indignar profundamente a alma dos classistas. Consiste na morte de um rico (ou mesmo um médio-classista respeitado em seu meio) em circunstâncias em que normalmente só morreriam pobres. E não interessa se o morto era conhecido ou não. A Classe tem o sentimento de bando, e uma baixa dessa natureza costuma deflagrar um luto, mesmo que contido, em pessoas que nem sabem o nome completo da vítima. Mas quando o falecido é alguém muito mais rico (porque Classe Média não é rico), o sentimento é mais forte, afinal, qualquer pessoa que seja mais rica que um médio-classista, é considerada por este como um semi-ídolo.

Contudo, algo que vai além disso incomoda muito o cidadão da Classe: ter o mesmo fim que o pobre. Pior mesmo é se for por um motivo tradicionalmente utilizado pelos pobres. A permanência em vida não é algo exclusivo, não dá pra fazer disso um clubinho só pra ver os pobres do lado de fora, assistindo Amaury Júnior e sonhando em entrar um dia. A condição de mortal faz todo mundo, em última instância, ser igual, não interessa se a tela mágica da sala de estar só mostra vídeos, fotos e depoimentos a respeito de alguém que a Classe considera um dos seus. (Queriam o quê? Que o aparelho sagrado ficasse perguntando a opinião dos pobres que sobreviveram?) Talvez por isso, por essa falta de reconhecimento à importância do médio-classismo praticante, morrer seja considerado pela Classe uma tragédia tão trágica, sem o perdão da redundância.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

dica 039 (parte 2): Ter espírito natalino



O Natal é uma grande celebração dos valores da Classe Média. Grandiosas e fartas festas são oferecidas em nome da santíssima trindade: a tradição, a família e a propriedade. Para celebrar estes três pilares de devoção, institui-se a figura do “Natal em família”, uma festa que acontece tradicionalmente todos os anos, com o maior número de familiares possível, normalmente na propriedade do patriarca. E não é uma festa qualquer: é uma espécie de prestação de contas coletiva e anual, algo como uma convenção para tornar pública as vidas alheias. Principalmente suas partes ruins.

Ali se reunirão pessoas que, na maioria das vezes, só se vêem durante estes eventos. Mesmo assim, a necessidade tomar e dar satisfações é legítima e inquestionável. Este tipo de evento não se constroi apenas através da fartura dos comes e bebes. A alma da coisa é a avaliação e o julgamento mútuo da vida de cada presente. Por isso, todos vão dispostos a causar a melhor impressão possível, mesmo para as pessoas que menos gostam ou que nem mantêm contato. E por que estas pessoas se submetem a isto? Por que simplesmente não faltam ao evento? Simples: os que faltam não podem desmentir os boatos que fatalmente surgirão, e portanto serão o foco das conversas a maior parte do tempo, sem direito a defesa. Aos ausentes, o maior prejuízo na imagem. Infelizmente é a lei.

Nesta festa acontecerá a batalha do ano em busca da atenção de quem quer que seja. Aditivados por álcool, cada um tentará se mostrar o mais chegado do patriarca, mesmo que não tenha falado com ele uma vez sequer durante o ano, no intuito de fazer com que a família imagine que o bajulador merece uma substancial fatia da herança que há de vir dentro de poucos natais. Nas rodas de conversa, muitos contarão suas proezas nos negócios, em viagens internacionais,  na vida em sociedade, tentarão fazer comparações de salários. As crianças correrão pela casa, quebrarão coisas, perguntarão como diabos o Papai Noel entrará em suas casas, uma vez que apartamentos não possuem chaminé. Os mais ricos humilharão os mais pobres com entrelinhas venenosas, e os intermediários pagarão pau para os mais ricos.

Se você, aspirante a médio-classista, vislumbrou cenas de terror absoluto na descrição acima, não se preocupe. Apesar da hostilidade do ambiente, por incrível que pareça, ali estará todo mundo sorrindo. Tudo o que você precisa fazer, neste caso, é sorrir também, não importa quais comentários maldosos tenha ouvido a respeito do seu novo emprego ou sobre sua vida amorosa. E você também pode se distrair com a inevitável decoração, e também com a trilha sonora. Pode ser que não toque Beatles (muito provavelmente não tocará), mas pelo menos uma do John Lennon na voz da Simone sempre rola. E ainda tem o especial do Roberto Carlos na TV, uma ótima oportunidade para distrair e se livrar das tias chatas.

Realmente não é uma tarefa das mais fáceis se adaptar a este estilo de vida. Mas para fazer parte da Classe Média, é muito importante entender de espírito natalino. E infelizmente, essa disciplina só pode ser patricada uma vez por ano. Portanto, para fechar o ano bem médio-classista, vista sua melhor roupa, sua melhor máscara e boas festas!

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Obrigado aos que acompanharam o Blog durante 2009. Voltarei a postar no início de Janeiro. Feliz 2010 a todos.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

dica 039 (parte 1) - Ter espírito natalino





Não adianta tentar fugir: para ser médio-classista, é estritamente necessário gostar do Natal.

O Natal é uma festa que acontece todo final de ano, onde as pessoas louvam um deus sempre retratado de barba, que veio do céu para trazer à humanidade o que realmente importa nesta vida. Trata-se do Papai Noel, carregado com um saco bem grande de bens de consumo. O Papai Noel é uma divindade muito louvada pelos médio-classistas, um personagem criado pela indústria de refrigerantes como o símbolo da festa mais importante para a Classe Média: a época das compras de Natal.

Apesar de ser uma importante e apreciada época festiva, as origens do Natal, tal como hoje é conhecido, não são bem claras. Algumas correntes científicas defendem que a data era utilizada, em tempos remotos, para festejar o nascimento de Jesus, ícone das religiões cristãs. Esta teoria, no entanto, enfrenta forte combate quando exposta ao fato de que sua comemoração ocorre no dia 25 dezembro, contrariando a lógica pela qual o calendário ocidental moderno se utiliza do nascimento do mesmo personagem como marco zero, o que, por dedução, só estaria correto se o mesmo nascesse no dia primeiro de janeiro. A contra-argumentação dos estudiosos que ligam o Natal a Jesus apresenta duas versões para resolver o imbróglio: ou ele nasceu prematuro de 7 dias, ou ele só foi registrado no cartório 7 dias depois, porque os pais moravam na roça e naquela época era penoso e demorado chegar à cidade no lombo de um burro. Ainda não há consenso na comunidade científica sobre o assunto.

O Natal também é a época da afirmação dos verdadeiros valores da Classe Média, e isto ela faz com demasiado talento. No afã de deixar claro que ter nascido no Brasil foi apenas um acidente de locação geográfica, os médio-classistas se esforçam para compartilhar do mesmo tipo de festividades que os grandes irmãos do hemisfério norte, também conhecidos como "mundo civilizado". Abre-se mão do mundialmente invejado clima tropical, que proporciona, por exemplo, noites de agradável temperatura, preferindo ambientar suas comemorações em uma emulação do inóspito clima de nevasca. Em pleno calor causticante de verão, nossos shoppings se cobrem de neve de espuma e isopor. Velhos gordinhos, coitados, são fantasiados de Papai Noel, enfiados em vestimentas, luvas e botas inclusive, desenvolvidas originalmente para que esquimós consigam atravessar vastíssimos desertos de gelo em busca de focas gordas. A tortura se completa com milhares de lâmpadas incandescentes, para tornar o ambiente já quente em uma verdadeira chocadeira, e claro, horas a fio de música instrumental das famigeradas harpas natalinas. Haja saco, hein Papai Noel!



(continua...)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

dica 038 - Conhecer alguém famoso



Para quem almeja ser respeitado como um autêntico membro da Classe Média, dizer que conhece alguém famoso pode render bons frutos.

Faz parte da conduta médio-classista buscar argumentos para se mostrar ao mundo como um ser humano com características especiais, como se fizesse parte de um seleto grupo da mais apurada genética, a quem as pessoas comuns devem admirar simplesmente por ser quem é. E nada encaixa melhor nesta descrição do que uma pessoa considerada “famosa”. Por isso, quem afirmar em uma roda de amigos de Classe Média que possui qualquer tipo de ligação com uma pessoa famosa, certamente obterá a atenção imediata de todos, desde seus interlocutores diretos até aqueles envolvidos em conversas paralelas.

A definição de “famoso” não é de difícil compreensão. É o sinônimo de “celebridade”. Se tiver dificuldades com o termo, utilize a regra que nunca falha: famoso, ou celebridade, é quem aparece na TV (a glória suprema da raça humana). A expressão pode abrigar várias categorias de pessoas: músicos, políticos, jogadores de futebol, modelos, participantes de escândalos, apresentadores de programas diversos, jornalistas e um sem-número de ocupações. “Artista” também é uma nomenclatura bastante utilizada, por possuir o mesmo sentido e se aplicar a todos os exemplos acima. Outra regra: parceiros sexuais de celebridades também são celebridades. Aprendeu? Então responda, qual dessas duas pessoas é famosa: José Saramago, ou o “Cabeção” da novela Malhação?

Tornar público o fato de conhecer um famoso é extremamente desejável. No entanto, isto não pode ser feito assim, de qualquer maneira, sob o risco de receber o rótulo de pessoa esnobe. Como o médio-classista padrão é convencido de que ser esnobe não é uma de suas qualidades, quem assim for rotulado perde pontos de credibilidade, sob a desconfiança de autopromoção explícita e gratuita. Logo, existe uma certa etiqueta para aplicar este recurso.

Em primeiro lugar, o fato de conhecer alguém famoso não deve ser o tema principal da conversa. Ele deve surgir naturalmente, dentro de outra conversa sobre qualquer assunto. Um exemplo: num papo sobre “literatura de qualidade”, você pode perguntar se alguém ali já leu o último livro do Paulo Coelho. Ignore as respostas, e complemente dizendo que o livro é ótimo, e que inclusive comentou isso, semana passada, com o "Guilherminho do BBB 3," quando você o encontrou buscando a “Julinha” na escola de balé.

Em seguida, demonstre possuir intimidade com o famoso. Explique que sua filha e a tal “Julinha” são colegas de balé. Diga isso como se todos soubessem que a filha do cara se chama Júlia, e que você a trata pelo diminutivo. Vai parecer que é algo tão natural pra você, que faz parte do seu dia-a-dia. Procure demonstrar que você vive no mesmo mundo que o famoso, compartilha o mesmo espaço e respira a mesma fumaça.

Neste ponto, alguns de seus colegas da Classe estarão suspirando, com orgulho do dia em que te conheceram. Outros terão uma suprema inveja, o que conta ainda mais pontos para ser aceito no grupo. Quando chegar neste nível, atenção: mude de assunto a qualquer custo. Sua missão estará cumprida, e você pode colocar tudo a perder se continuar falando. Há o risco de você acabar contando que viu este “famoso” apenas duas vezes na sua vida, sendo que na primeira implorou por uma foto com seu celular e um autógrafo em sua camisa, e na segunda o abordou de forma tão afoita que o famoso foi embora e te deixou falando sozinho. Isso é segredo! Ficar eufórico diante de uma “celebridade” é coisa de pobre. Logo, quando for fazê-lo, certifique-se de que não há ninguém olhando.